quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

SP: governo anuncia internação compulsória de viciados em crackPDFImprimirE-mail
Jornal Nacional
Equipes de abordagem vão identificar os usuários em situação mais grave e levá-los para um centro de referência. A internação compulsória é prevista em lei, desde que haja atestado médico e autorização da Justiça.
O governo de São Paulo anunciou um programa de internação de dependentes químicos para tratamento, mesmo contra a vontade deles. A internação compulsória é prevista em lei, desde que haja atestado médico e autorização da Justiça.
Ela fez 34 anos nessa quinta-feira (3), mas, consumindo até 20 pedras de crack por dia, o tempo passou mais rápido.
“No estado que estou, me sinto como se tivesse 50. Eu estou acabada”, diz a mulher.
Faz três anos que a auxiliar de enfermagem, mãe de dois filhos, se envolveu com o crack. Ela resiste a se tratar.
“Tenho medo da reação, dos medicamentos que eles dão”, revela.
Entre as centenas de dependentes de crack que ocupam as ruas de São Paulo, muitos desistiram do tratamento. Outros nem aceitaram ser internados. Diante desse cenário que se arrasta há décadas, o governo resolveu mudar de estratégia e internar os mais debilitados, mesmo contra a vontade deles.
Equipes de abordagem vão identificar os usuários em situação mais grave. Eles serão levados a um centro de referência perto da cracolândia. Lá, vão ser avaliados por médicos. A equipe terá ainda advogados, promotores e juízes que vão decidir sobre a internação.
“A internação grave é indicada quando a pessoa está em risco de vida ou colocando alguém em risco de vida. Quando você tem esta equipe de profissionais juntos, a fluidez do processo é muito maior, além da gente criar um olhar diferente para esta situação”, explica Rosângela Elias, coordenadora da Secretaria de Saúde de São Paulo.
Para o psicanalista Antônio Sergio Gonçalves, a medida não pode ser isolada.
“Esse processo de degradação leva anos, é gradual e progressivo. Agora não dá para responder uma questão social simplesmente reprimindo a questão da droga. Uma ação só dá saúde ou apenas da polícia não basta. É preciso envolver respostas, por exemplo, como a questão de moradia e a questão de geração de renda, trabalho”, defende.
O juiz da Infância e Juventude, Antonio Carlos Malheiros, é a favor da internação contra a vontade em casos extremos, mas faz uma ressalva.
“Não pode ser uma medida higienista de se procurar limpar o centro da cidade apenas, de pessoas tidas por grande parte da sociedade como indesejáveis. Há que se ter muita cautela, muito cuidado e, acima de tudo, muita solidariedade com essas pessoas que não tem absolutamente mais nada e nem respeito por si próprias”, opina.
“Na rua me sinto um lixo. Estou me sentindo no fim da vida”, declara um dependente.
Viciado há 11 anos, o homem aceitou nesta sexta-feira (4) o convite de uma igreja. Ela oferece banho, comida, corte de cabelo e muita conversa para criar uma relação de confiança com os dependentes. Quem aceita é levado para tratamento. Um caminho que o pedreiro resolveu seguir hoje.
“Não adianta querer sozinho, com as próprias forças, que não vai conseguir. Tem que se afastar para depois conseguir se manter em pé”, encoraja.

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